Não basta sabermos que é um dos portugueses mais internacionais, ou seja, com maior credibilidade em terras além fronteiras. Não basta pensarmos no impacto que um livro como Portugal Hoje – O Medo de Existir (2004, Relógio d’Água) provocou na comunidade socialmente científica… e nos tops de vendas. Na senda dos estudos que tem desenvolvido sobre este “ser-se português”, o filósofo José Gil já descortinou conceitos que se entranharam em conversas de café: a “não-inscrição”, a alienação provocada pelos media, o medo de intervir no presente (existir) tornaram-se temas apelativos entre os seus leitores (e não só).
Neste pequeno livro (meia centena de páginas) o filósofo continua a dissecar a alma portuguesa, onde, além de pegar nos medos já tão mencionados, aborda a busca contínua de um povo que se encontra descaracterizado, sem identidade definida e a percorrer trilhos estranhos sem alcançar o destino almejado.
Numa linguagem que permanece acessível e simplificadamente filosófica, José Gil arranca pedaços do quotidiano nacional e atribui-lhes os sentidos mais básicos, aqueles que por vezes parecem escapar ao observador mais atento.
Quatro ensaios de poucas páginas, mas de cariz muito crítico: “A subjectividade perdida”, “Processos de subjectivação”, “A mais-valia de biopoder” e “A avaliação e a identidade”. Um leque composto pela relação com temas fortes como o distante “lá fora” (o estrangeiro visto pelo olhar português), as especificidades dos discursos políticos (com ênfase na figura do primeiro-ministro José Sócrates) e o polémico estado da educação no país.
Em relação à tal visão distante e distanciada dos outros países, o autor relativiza com: “até agora vivíamos recolhidos em nós, protegendo-nos ainda do choque com um fora que não pára de nos invadir – a União Europeia.” (pág. 57). Mas conclui com uma tirada amarga: “A “Europa” não faz ainda parte da experiência consciente quotidiana dos portugueses. (pág. 58)
Outro dos pontos fulcrais desta perspectiva filosófica da actualidade portuguesa é o “chico-espertismo”, fenómeno nacional que se infiltra em todo “o tipo de subjectividade da nossa sociedade, sendo transversal a todas as classes, grupos, géneros e gerações” (pág. 30), ironizando com exemplos de contorno dos meandros legislativos.
Num ano decisivo em que três eleições deveriam definir o futuro próximo do país, esta análise corrosiva da mentalidade “dócil” tão portuguesa é mais um contributo para o debate que teima em não surgir. Se crermos em José Gil, na finalização desencantada deste livro, “tudo isto está a esboroar-se, com a crise global a acelerar bruscamente o processo. (…) É a ameaça psicótica (…) de perder a imagem de si, ou a identidade. De desaparecer, enfim.” Não é estranho, portanto, o retorno constante do autor às palavras melancólicas do poeta Pessoa e às “lágrimas de Portugal”.
Obra: Em Busca da Identidade – O desnorte
Autor: José Gil
Editora: Relógio D’Água
Ano: 2009
Nº de páginas: 57
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Nome: Joana Palminha
Número de Artigos: 2
Jornalista. Leitora. Jornalista de literatura e leitora de jornalistas.

