Na noite do passado sábado, a Lx Factory, em Lisboa, recebeu a final de mais uma edição, a 15ª, do festival «Termómetro», um projecto concebido pelo homem dos sete ofícios Fernando Alvim. E foi num ambiente industrial e frio, como a temperatura que se fazia sentir cá fora, que o Termómetro fez subir a temperatura, num festival que caminha a passos largos para a maioridade.
Conhecido por lançar bandas como «Blind Zero», «Silence 4» e «Ornatos Violeta», o festival deste ano contou, para além das actuações das bandas finalistas, com a participação dos «BASS-OFF», a banda vencedora da edição do Termómetro do ano passado e com uma actuação especial de um trio composto por Samuel Úria, B Fachada e Manel Cruz, a justificar por si só uma Lx Factory preenchida.
O concerto de abertura esteve a cargo dos «BASS-OFF», agrupamento das Caldas da Rainha possuidor de sonoridades mais “rockeiras“, preenchida aqui e ali com alguns rasgos de guitarradas mais agressivas num género descrito pela banda como Rock ‘n’ Noise. Com disco, intitulado «Ohmónimo», prestes a sair, os «BASS-OFF» deram o mote para o que viria a ser o resto da noite.
Diga-se à partida que as características que fizeram do Lx Factory o espaço ideal para este tipo de eventos – um ambiente escuro e profundamente industrializado – contribuíram também para que o som não estivesse nas melhores condições, dada a fraca acústica do local.
Após a actuação dos «BASS-OFF» teve então início a final propriamente dita. Cada uma das seis finalistas teria de tocar quatro músicas, tendo que uma delas ser, obrigatoriamente, uma versão. Desta forma, o concurso abriu com o pop melódico dos portugueses «Long way to Alaska», naturais de Braga, com uma actuação algo apagada, talvez pela própria envolvência e acústica do espaço, ou pela pouca experiência da banda que terá dado o seu primeiro concerto em Novembro de 2009, levantando, no entanto a curiosidade de os ouvir numa sala adequada.
Seguiram-se os espanhóis «Autumn Comets» e o seu punk rock corriqueiro, sem nada de novo para oferecer, conseguiram fugazmente atingir o pico da sua actuação na terceira música, quando interpretaram a música «Paper Planes» de M.I.A., numa versão interessante, marcando sobretudo pela diferença em relação à versão original. No entanto se há coisa que os espanhóis – «Autumn Comets» incluídos – deveriam ter aprendido com o Rick Martin e todos os filhos bastardos do Julio Iglesias, é que cantar em inglês nem sempre é boa ideia.
No entanto, foi à passagem da terceira banda que o ambiente começou a aquecer com a entrada dos portugueses «The Hypers». Praticantes do chamado rock revivalista, os três elementos da banda alfacinha soltaram autênticas descargas eléctricas, com riffs de guitarra a fazer lembrar, a certas alturas, os suecos «The Hives». Para versão escolheram «Woman» dos «Wolfmother» numa actuação que acabou por contagiar – e conquistar o público. O público mostrava então sinais de estar ali, também, para ver e ouvir boa música e não só beber umas cervejas e conviver com amigos.
Com o público mais animado – e aquecido – pela actuação dos «The Hypers» o trabalho até parecia facilitado para os alemães «Black Taxis» que apenas teriam de manter o ritmo. E até poderiam tê-lo feito, mas não teria sido a mesma coisa. À quarta actuação estava prestes a rebentar a bomba da noite. Quem os ouve no Myspace nem adivinha metade da irreverência e energia que esta banda mostra em palco – sobretudo o vocalista – mas a verdade é que o espírito do rock ‘n’ roll esteve ali representado com todos os seus piores e, sobretudo, melhores tiques. Desde o crowd surfing, ao brincar constantemente com o fio do microfone em torno do pescoço e por dentro da camisola e cuspindo a água que bebia, segundos antes. Todos estes clichés faziam sentido e público reagia com entusiasmo. A actuação realizada deixava praticamente em cheque as restantes bandas, mesmo as que ainda não haviam actuado. Foi quase como se uma equipa de Premier League se intrometesse num torneio das distritais – o vencedor seria inevitável. Como versão, a banda alemã optou por um tema que, como a banda fez questão de referir, remonta ao início da história do rock, interpretando o «Twist and Shout» dos «The Beatles», proporcionando assim um dos momentos altos da noite.
Ainda assim, e quase que para cumprir calendário, ainda houve espaço para mais duas actuações, referentes a bandas da competição – os portugueses «You can’t win Charlie Brown» e os belgas «Hallo Kosmo» que viriam a ser respectivamente coroados com o terceiro e segundo lugar da competição. De destacar o som poliglota da banda de Bruxelas – foi a única banda da competição que não cantou exclusivamente em Inglês – que exibiram um pop electrónico ora colorido, contrastando com cenário fabril do espaço, ora decadente e até melancólico a fazer relembrar o som synthpop dos «Devo». Tanto é que a escolha do cover foi precisamente para um dos principais êxitos da banda americana «Whip it», lançado no início dos anos 80’s.
Para o final, já a noite ia longa, e enquanto o júri escolhia o vencedor do concurso, estava guardado o momento maior de todo o evento, pelo qual todos os presentes ansiavam.
Com uma actuação totalmente acústica, Samuel Úria e B Fachada, membros das fileiras da editora «Flor Caveira», embalados pelos respectivos sucessos em 2009, juntaram-se à mestria dessa lenda da música portuguesa que é Manel Cruz, ex-vocalista dos Ornatos Violeta, Pluto e Supernada para criar um momento raro e extremamente especial. A actuação acabou por ser curta, onde cada músico apresentou duas canções do seu repertório, sendo que o entrosamento entre os três esteve dentro dos possíveis. Ainda assim, este foi o suficiente para fazer daquele um momento histórico, à sua maneira, quer para o público – muito jovem – que assistia estarrecido, talvez por ter pela primeira vez a possibilidade assistir a um concerto do artista natural do Porto, como para os próprios músicos da «Flor Caveira» que tinham a possibilidade de actuar lado a lado com um daqueles mitos vivos da música nacional. Samuel Úria terá inclusive referido que “apesar de nunca ter conhecido o Manel (Cruz)” o ouvia muito quando “dez anos antes, acabava um relacionamento”.
No final, a actuação terminou em apoteose, com Manel Cruz a relembrar «Capitão Romance» com o acompanhamento, sem qualquer falha, do público presente. No final pediu-se mais. Não houve. Como qualquer momento histórico, dificilmente se repetiria. Restava apenas aos sobreviventes desta autêntica maratona musical saber o óbvio – a vitória mais do que merecida dos «Black Taxis» – e desfrutar do espaço ao som de um Dj set de «Dr. Ramos».
Assim se fez mais uma edição de «Termómetro», um concurso que também é festival, e que ganha cada vez mais espaço no panorama da música nacional. Para o ano, espera-se, haverá mais. Viva o Termómetro e, porque não, viva o Alvim.
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Nome: Pedro Martins
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Software Engineer @ Movensis com mestrado em Sistemas de Informação Empresariais no Instituto Superior Técnico. Fascinado por fotografia, música, cinema e bem...por tudo o que se escreve por aqui.
Fundador e editor do ilícito[mag]
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E os You Can't Win, Charlie Brown!? Não participaram?
Fui apanhado. Confesso que, numa maratona de mais de 6 horas de música, senti a necessidade de vir cá para fora e fazer uma pausa, pelo que optei não me alongar sobre o concerto deles, referindo apenas o facto de terem ficado no 3º lugar. Mas agora que reparo que não inseri o link para a sua página do Myspace.
Posso apenas dizer que a julgar pelo que demonstram no myspace, gosto da sonorodidade deles.
Obrigado pelo comentário.