
Sessenta anos após a realização da versão animada de «Alice in Wonderland», adaptado a partir da obra de Lewis Carrol escrita em 1865, a Disney decidiu retirar do baú uma das suas obras mais queridas e apreciadas por forma a conferir-lhe um visual actual, confiando-a, para tal, à visão e ao génio de Tim Burton.
À partida o nome e currículo de Burton surgiam como ideal para produzir uma obra tão rica em fantasia – que é, afinal de contas, a sua praia. É mesmo inevitável traçarmos um paralelo entre o universo imaginário de gigantes e bruxas que prevêem a morte, onde Ewan McGregor se perde («Big Fish») e este onde habitam coelhos que falam e vestem coletes, onde gatos sorriem e lagartas fumam um tabaco deverás duvidoso.
Nesse aspecto, diga-se, Tim Burton foi competente. Tanto o universo ora sombrio ora caricato – vulgo País das Maravilhas – e a caracterização de algumas personagens como uma Rainha de Copas (Helena Bonham Carter) com tiques de Kim Jong-ll e de um irreverente Chapeleiro (Johnny Depp) foram executados na perfeição. Diga-se também que, tal é a fasquia à qual Burton habituou o público ao longo da sua carreira, outra coisa não seria de se esperar, sendo no mínimo expectável.
Acontece que faltou o resto. Faltou um fio condutor que mantivesse o espectador acordado numa sessão de matine. Faltou algo que não tornasse o filme tão só uma sequência de cenas mais ou menos caricatas, que oscilassem entre devaneios de personagens peculiares. No fundo, algo que não tornasse o filme tão aborrecido. Porque o é, e muito.
E assim se perde um dos filmes nos quais muitos depositavam algumas esperanças e que poderia complementar da melhor maneira um ano muito positivo para o realizador californiano, num período em que a sua obra foi acolhida e celebrada na exposição por demais mediatizada e aplaudida. Não basta por isso a Burton estar consecutivamente rodeado dos actores em quem mais confia nem recriar todo aquele universo apelidado de “Burtoniano”, e onde nem mesmo o uso do 3D – que parece funcionar cada vez mais como um atalho nas bilheteiras para realizadores mais preguiçosos – ajudam a salvar um filme condimentado com demasiadas especiarias mas com muito pouco sal.
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