Como muitos de nós Tito da Costa apaixonou-se pelo cinema ainda miúdo. A epopeia de George Lucas levou-o a querer empunhar um sabre de luz e às imagens tomou-lhes o gosto enquanto repórter. O cinema caminhou sempre ao seu lado e até o maior ataque terrorista dos nossos dias lhe abriu as portas para o mundo de sonho e fantasia que é Hollywood. Agora é o primeiro realizador português com o apoio de um grande estúdio americano a rodar uma longa-metragem. Road To Red vai para as salas por alturas do Festival Internacional de Cinema de Cannes, mas antes a Ilícito Mag esteve à conversa com ele.
ilícito: Como foi o teu encontro com o cinema?
Eu acho que meu primeiro grande encontro com o cinema aconteceu no antigo Monumental. Eu devia ter uns 9 anos e não era a primeira vez que ia ao cinema, mas a Guerra das Estrelas deixou-me completamente fascinado. Na altura isso manifestou-se pelo desejo de me tornar num Luke Skywalker, mas acho que foi aí que tudo começou…
ilícito: Como se deu o “salto” para Hollywood? 
Curiosamente com o 11 de Setembro. Eu fazia a cobertura do Circuito Profissional de Surf Europeu e com o atentado cancelaram todas as provas da perna Europeia, o que aliado à crise que se instalou, acabou por se tornar no momento ideal, para fazer um retiro estratégico e ingressar num curso de realização de ficção. Sonho que já tinha há bastante tempo.
ilícito: Era impossível seguir uma carreira de realizador em Portugal?
Impossível não diria. Mas as coisas em Portugal não são iguais para todos… o que torna tudo muito mais complicado.
ilícito: As ferramentas disponíveis em Portugal, como os apoios do ICA, são suficientes?
Bem, aqui em Hollywood nem sequer existem ICA’s… por isso não é por aí que lá vamos. O maior problema desse tipo de instituições é que fomentam cinema sem objectivos comerciais, o que no fim, só prejudica todo o cinema em si. E isto dito por uma pessoa que considera e ama o Cinema como uma arte! O resultado está bem à vista… Não existe investimento particular no cinema em Portugal. Os realizadores são sempre os mesmos e as salas continuam vazias. Qual seria o incentivo para um potencial investidor?!
ilícito: Como é a vida de um jovem realizador em Hollywood?
Cinema! Los Angeles é uma cidade pouco amigável, mas reúne duas condições essenciais para a minha sobrevivência. Surf e boa comida! Aqui surfo quase todos os dias e depois sigo para o trabalho, que consiste pura e simplesmente em terminar o meu filme, desde há 4 anos para cá. Tudo gira a volta do mesmo objectivo. Tenho uma vida pouco social. É essencialmente respirar, viver e produzir cinema, que é o que eu adoro.
ilícito: Estás agora quase no final de produção da tua primeira longa-metragem. Porque decidiste filmar Road To Red?
O Road to Red foi o quarto projecto com que tentei lançar o inicio da minha carreira. É muito difícil este primeiro passo. Apesar de já ter feito 3 curtas-metragens e trabalhado com alguns nomes de peso em Hollywood, como a Digital Film Tree, é sempre complicado transmitires segurança a um investidor, com realizador estreante, no que pela sua natureza já é um negócio de alto risco. O Road to Red era o projecto ideal para mim. Muito poucas pessoas reúnem o meu nível de conhecimento no meio do surf, skate e cinema. Foi a fórmula mágica!
ilícito: Como foi conseguido o apoio dos produtores? Como é esse processo de apresentação de uma ideia até ao primeiro dia de rodagem?
Isso dá para escrever um livro sobre o assunto… O pior é que quando fores para o teu segundo filme, é melhor começares a escrever outro… É sempre diferente de projecto para projecto. Muitas vezes pensas que tens o projecto mais incrível, e falo por experiência pois tenho projectos em carteira com tanto ou mais potencial que o Road to Red, e por uma razão ou outra não avançam. O Road to Red reunia um excelente leque de condições favoráveis. Um projecto altamente comercial, completamente original, com um target audience bem definido, uma estratégia de divulgação bem concebida e um orçamento convidativo. Os investidores são pessoas que têm vindo a acompanhar a evolução da minha carreira desde que estudei em Londres em 96/97. O timing era certo para eles e o Road to Red estava pronto para entrar em marcha. Como se diz aqui: “Destiny is being at the right place, at the right time, with the right project!”
ilícito: Qual é a história do filme?
O filme começa com o misterioso desaparecimento de Paul McGuinness, um campeão mundial de skate. O seu veículo é encontrado abandonado à beira de um lago e a sua prancha a flutuar no mesmo… mas o seu corpo não é recuperado… Seis meses depois o seu irmão, juntamente com 4 dos seus melhores amigos decidem fazer um filme para lançar um novo tipo de Skate que Paul inventara antes do seu desaparecimento. No final das rodagens prestam uma homenagem no lago onde Paul desapareceu e descobrem a razão que o levara esse local, mas o que aconteceu ao Paul, começa a acontecer-lhes a eles…
ilícito: Do elenco fazem parte actores e desportistas. Como se controlam pessoas tão distintas? 
Quase todos os membros da equipa são surfistas/skaters. Durante as filmagens parecíamos uma grande família. Trabalhávamos, comíamos e dormíamos todos juntos. Os atletas profissionais foram usados como duplos, para elevar a performance dos actores ao nível desejado. A sua integração com o resto da equipa foi sempre super saudável. Éramos todos da mesma “raça”!
ilícito: Filmar com 2 milhões de dólares impede de fazer uma melhor produção? É um orçamento “curto”?
Um orçamento, seja ele qual for, é sempre curto! Quanto mais tiveres, mais vais querer fazer! E é claro que ter 2 milhões para fazer um action adventure thriller, não é lá grande coisa… como o meu produtor me costuma dizer: “Dude, you’re paying your dues!” Por isso, sem desculpas, continuamos a fazer “milagres” todos os dias para trazer o Road to Red até as salas de cinemas! Pois não quero que hajam dúvidas que os meus “dues” estão mais que pagos… ahah!
ilícito: O filme foi rodado entre a Califórnia e a Costa Vicentina Algarvia. Porquê?
O filme foi rodado essencialmente no norte da Califórnia, mas fomos ate ao Arizona e Utah também, para captarmos as paisagens deslumbrantes que vão ver no Road to Red. Quando tens um orçamento limitado, “há que ter olho”! A maioria do teu “production value” está nas escolhas das tuas localizações. Na história, os nossos personagens embarcam numa viagem de sonho, para qualquer surfista/skater e como não poderia deixar de ser, mágicos Secret Spots teriam que fazer parte dela. Como a costa Californiana está praguejada de surfistas, a Costa Vicentina foi uma escolha fácil! Depois de ter observado a semelhança entre a nossa costa e a da Califórnia, sugeri ao meu produtor rodarmos as unidades de surf em Portugal. Como os custos eram bastante reduzidos, não foi difícil obter luz verde. Infelizmente a nossa primeira viagem foi atormentada por uma tempestade de sul, daquelas que não se quer ir embora… fomos obrigado a refugiarmo-nos em Peniche, devido as condições que a sua origem peninsular oferecem para a prática do surf. Graças aos nossos amigos do Surf Castle ficámos umas 3 semanas por lá, tentando filmar sempre que era possível, mas não conseguimos reunir todo o material necessário. Mais tarde, já depois de ter perdido as esperanças de poder regressar, foi graças ao Eduardo Sousa da Flavour, nos ter posto em contacto com a Algarve Film Commission que os incansáveis Eduardo Pinto e Paulo Pereira nos conseguiram trazer de volta à bela Costa Vicentina para filmar!
ilícito: Durante a rodagem em Portugal quais foram as maiores vantagens e entraves?
A rodagem em Portugal correu lindamente! As maiores vantagens foram sem dúvida o clima, as praias desertas, os baixo preços e a melhor qualidade de vida em rodagem, de que tenho experiência. Levantávamo-nos de madrugada para ver as condições do mar. Comprávamos um belo pão Alentejo acabadinho de fazer no Café Conchinha hmmm… Tomávamos o pequeno-almoço, preparávamos o farnel e fazíamo-nos à estrada. Depois de umas 2 ou 3 horas de filmagens dentro de água, íamos direitinhos à praça de Aljezur para comprar peixe fresco, seguindo-se um belo churrasco ao ar livre e respectiva “siesta”. Perto do final de tarde, assim que o vento começava a abrandar, fazíamo-nos outra vez à água, para sermos recompensados com mais um churrasquinho de lombinhos de porco preto do Talho do Paulo… pode ser que daqui a uns anos me possa dar ao luxo de só fazer filmes só ai… ; )~
ilícito: Portugal tem potencial para se afirmar no contexto cinematográfico mundial? O que falta?
Fazem-me sempre esta pergunta… Nem entendo bem onde é que está a dúvida!!!??? Temos um clima espectacular, uma paisagem lindíssima e variada, monumentos históricos de fazer inveja a qualquer outro país… só falta mesmo é as pessoas pararem de fazer perguntas óbvias e porem mãos à obra! Faltam essencialmente incentivos fiscais! O resto vem por acréscimo! O New Mexico e um óptimo exemplo disso! Há 10 anos atrás não havia cinema… este ano foi considerada a melhor cidade para um cineasta viver nos EUA. Sim, à frente de Hollywood! Agora as coisas não caiem do céu, e não é só a dizer que vão fazer que as coisas aparecem feitas…
ilícito: Há valores? Pessoas com potencial? Quais os conselhos que lhes podes dar?
Acho que também não há dúvidas que há pessoas de valor em Portugal! Entre Silicon Valley (informática), Hollywood (Cinema) e NY (mercado financeiro), um grande número já lá não está… O problema é não lhes darem valor enquanto estão ai… e darem oportunidades a outras tantas que não o tem…Como se costuma dizer; conselhos, se fossem bons não se davam… Eu acho que há uma tendência de que porque vemos tantos filmes e bebemos todos os making of, de que todos seríamos capazes de fazer um filme… eu estou a acabar a minha primeira longa e sinto que ainda nem a meio do abecedário vou… A única maneira de aprender a fazer um filme é fazendo um!!! E não me digam que não há apoios, porque para fazer os primeiros filmes, todos nós hoje em dia temos ao alcance tudo o que é necessário! Aconselho que leiam “The DV Rebel’s Guide” do Stu Maschwitz, inventor do Magic Bullet. Depois é mandar as desculpas tipicamente portuguesas para trás das costas e por mãos a obra. E depois? Vão fazendo mais até que os resultados finais comecem a ser aceites em festivais. Do resto o destino se encarregará…
ilícito: Por último. O que reserva o futuro? Prémios, grandes produções, o regresso a Portugal?
Prémios são sempre agradáveis com reconhecimento, mas nem quero pensar nisso. Desde que o público goste dos meus filmes, fico com a minha recompensa saldada! Num futuro a curto prazo, quero acabar de aprender o abecedário… ou seja continuar a fazer filmes, sejam de que orçamento for. Num futuro longínquo e ideal, o meu sonho é fazer um Braveheart da Historia do nascimento de Portugal e um Lord of the Rings dos Lusíadas! Como é fácil e bom sonhar… ahah!
Vê os teasers e mais umas coisitas no site do filme de Tito da Costa

