Não andam nesta vida, a do hip-hop, entenda-se, há pouco tempo. Foram precursores do género musical neste rectângulo de 92 mil km² à beira-mar plantado, ditando, tal como um punhado de outros músicos, as regras do hip-hop português.
Presto, Ace e Serial são figuras do inconformismo contra a apatia e a rotina cheia de facilidades em que tantos como eles acabaram por cair com o passar dos anos, criando com os Mind da Gap um bastião no que toca à produção de música de qualidade.
Escolheram não marcar presença nessa Arca de Noé que foi o revelatório «Rapública», disco editado em 1994 e que marcou os primeiros sinais da entrada de uma nova música na vida dos portugueses.
De 1995 – ano de estreia com o EP homónimo – para cá, os Mind da Gap deram à música portuguesa uma mão cheia de álbuns e de músicas incontornáveis. Do pré-histórico «Piu-Piu-Piu», passando por «Todos Gordos», «Socializar por Aí», «Não Stresses», «Tilhas são Sapatilhas», «Dedicatória» ou «Bazamos ou Ficamos», estes três portuenses têm marcado constantemente o seu lugar na história do hip-hop português, seja através da produção de Serial ou das rimas de Presto e Ace.
Com «A Essência», editado no final de Abril, surgem de certa forma renovados, naquele que é o seu primeiro lançamento de originais depois do “best of” «Matéria Prima (1997-2007)».
«Abre os Olhos» e «A Essência» fizeram as primeiras apresentações deste novo registo, cabendo actualmente a «Não Pára» – onde contam com a participação de Valete – fazer as honras da casa.
Ao ilícito, os Mind da Gap falam sobre o passado, a evolução da sua música, o ponto actual das suas carreiras e o estado do hip-hop português, tudo isto numa entrevista em que ficam prometidas “as músicas sobre artroses mais interessantes da história”.
ilícito: Este é o vosso oitavo álbum, ao fim de mais de 15 anos de carreira. Quando começaram eram ainda adolescentes, certamente com outra visão do mundo, algo que se reflectia nos versos. Ao fim de tantos anos, sentem que mudou alguma coisa nas vossas mensagens ou os Mind da Gap de hoje não são muito diferentes dos de 1993?
MdG: Na verdade, este é o nosso 5º álbum [mais dois EP's e um Best Of]. Ao fim destes anos todos, não sentimos que tenhamos mudado assim tanto. É claro que já não somos os mesmos como pessoas e que isso se reflecte nas músicas, mas gostamos de acreditar que o processo pelo qual passámos foi de evolução. Nesse sentido, talvez tenhamos perdido algumas características que tínhamos quando começámos, mas ganhámos outras. De qualquer das formas, continuamos a ser os mesmos MdG “com uma atitude única, às vezes suave, às vezes dura”.
ilícito: «A Essência» é o vosso primeiro álbum depois do lançamento de «Matéria Prima», que reuniu os vossos maiores clássicos até então. Sentem que esta pode ser uma nova fase no percurso dos Mind da Gap e daí o facto de terem lançado um “best of”, para existir uma certa diferenciação?
MdG: Gostávamos que esta fase, com este álbum, pudesse significar uma espécie de recomeço, ainda que nunca tivéssemos parado. Mas acreditamos muito neste trabalho e isso faz-nos sentir muito bem, com uma energia como que renovada, com “pica”, como se estivéssemos a começar agora. O “best of”, no entanto, foi uma decisão essencialmente da editora, na qual tivemos pouca intervenção, à excepção da ajuda na escolha dos temas e da gravação de dois originais. Não nos opusemos à ideia, mas não saiu da nossa cabeça.
ilícito: Como surge a ligação com a Meifumado? Porquê a mudança e quais as vantagens da ligação a uma editora independente que tem como mote “A Meifumado continua a cagar na precaução…”?
MdG: Queríamos experimentar uma nova editora, pessoas diferentes com quem trabalhar, ambientes diferentes, formas diferentes de ver a música. Quanto às vantagens (ou não), temos que esperar para ver.

ilícito: Consideram que se tivessem numa “major” correriam o risco de, inconscientemente, perderem alguma liberdade na forma como criam a vossa música?
MdG: Talvez, sim. Por outro lado, talvez estivéssemos já num plateau de reconhecimento diferente. Em provavelmente nenhuma situação da vida existe unicamente uma realidade negativa ou positiva. Há sempre os prós e os contras. Sempre fomos muito pouco maleáveis em relação a “dicas” da editora em relação ao que e como fazemos, mas as pressões, quando existem, sentem-se mesmo que não seja de forma directa.
ilícito: Hoje em dia, de onde retiram a vossa inspiração, quer musicalmente na construção de beats como na escrita de rimas?
MdG: Hoje, como sempre, a inspiração vem de todo o lado e todas as coisas, situações, emoções, acontecimentos, ideias, etc. Por vezes essa inspiração é directa e assumida (ou procurada) noutras, é inconsciente e absorvemo-la de forma mais subliminar.
ilícito: Seja pelo artwork do álbum, pelo seu nome ou por músicas como «A Essência», «Carpe Diem», «O Eremita» ou «Sintonia», são estes uns Mind Da Gap mais espirituais?
MdG: Talvez. Não sei se serão os Mind da Gap mais espirituais. Somos três pessoas a funcionar em sintonia, no acto criativo. Basta um de nós estar numa certa frequência para acabar por influenciar os outros dois num determinado sentido. É óbvio que, para quem ouve, e vê os MdG, as ilações serão sempre tiradas em relação ao grupo como um todo e temos consciência disso. Ao aceitarmos esse facto, estamos todos a assumir essa identidade ou atitude que possa passar para fora. Isso não quer dizer que a influência que um de nós pode exercer num determinado sentido quando criamos, não possa ser completamente diferente no próximo álbum – ao ponto de já não parecermos tão espirituais assim, por exemplo.
ilícito: «Parece que o hip-hop já passou de moda / Aleluia, porque é um ciclo que se renova». Que tipo de renovação sofreu o hip-hop nacional e com que bases afirmam que este já passou de moda? Terá passado de moda ou simplesmente passou a ser algo natural na sociedade como o rock ou o pop?
MdG: Afirmamos que “parece que o hip-hop já passou de moda”. Desde que “aqui” andamos – 1993 – que o hip-hop passou por várias fases de apreciação por parte dos media e do público – de galinha dos ovos de ouro a estilo com os dias contados, de boom à inexistência, de estilo que renovaria a música nacional a parente pobre da mesma. Actualmente, o hip-hop está já enraizado, já não se consegue apagar da história, mas continua a passar por ondas e momentos melhores e piores, sendo que agora parece estar a atravessar uma fase menos “mediática”. Há menos público, menos interesse por parte dos meios de comunicação, das editoras e dos produtores de espectáculos. Mas nós cá continuaremos, não pára.
ilícito: Apesar de o hip-hop ter uma forte representação no norte do país, para quem não está dentro da cena no Porto/Gaia transparece a ideia de que o hip-hop, nestes anos todos, se resume a dois grandes colectivos (Mind da Gap e Dealema). Porque acham que isto acontece? Falta uma maior aposta em projectos novos? Já agora, de novos nomes/projectos, têm algum que gostariam de destacar?
MdG: Talvez tenha a ver com os objectivos que essas pessoas traçam para as suas carreiras… Nós sempre quisemos fazer disto a nossa vida e trabalhámos muito e continuamos a fazê-lo, para que assim possa ser. Profissionalizamos ao máximo a nossa atitude e nosso modus operandi – quer na produção dos álbuns, quer nas apresentações ao vivo e demais actividades relacionadas com o ser-se músico profissional. Há mais alguns projectos com interesse no Porto, mas talvez pequem por defeito no que toca a esses outros aspectos. Não vamos destacar nomes, porque sempre nos esquecemos de alguém nestas alturas e não é correcto. Mas há alguns e para todos os gostos.
ilícito: Apesar de haver um conjunto de ouvintes e um mercado que ouve e consome hip-hop, a verdade é que mesmo com os nomes mais fortes como os Mind da Gap, acaba por não haver assim tantos concertos. Porque é que tal acontece?
MdG: Já foi diferente, pelo menos no que toca a MdG. Não sei se a actual conjectura económico-financeira de crise tenha influência, mas parece-me que as entidades que “compram” concertos têm tido tendência a apostar em sonoridades mais populares, que ofereçam mais garantias de satisfação de um público mais generalista.
ilícito: As origens do hip-hop estão ligadas à contestação social. Estando directamente ligados ao início do género em Portugal, qual acham que foi o impacto deste som na sociedade portuguesa?
MdG: Não temos a arrogância de acreditar que esse impacto se tenha de facto verificado. Gostamos de pensar que conseguimos tocar nas pessoas que nos ouvem, que talvez até consigamos influenciar comportamentos e ideias dessas mesmas pessoas, mas para lá disso, parece-nos pouco credível que possamos ter algum impacto que não seja meramente passageiro.
ilícito: Estando a atingir a maioridade em termos de carreira musical, nota-se que certos temas de índole pessoal começam a entrar nas vossas letras – o que acaba por ser natural porque será certamente um reflexo da vossa vida. Até onde vêem a vossa carreira chegar? Vêem-se daqui a 40 anos a rimar sobre a crise nas reformas de aposentados ou sobre artroses?
MdG: O que nos importa e onde nos concentramos, é o aqui e o agora. A nossa carreira chegará até onde nós quisermos que ela chegue. Enquanto tivermos vontade de o fazer, vamos fazê-lo. Se será até daqui a 4 ou 40 anos, só o tempo o dirá. De qualquer das formas, se isso acontecer, posso garantir que serão as músicas sobre artroses mais interessantes da história.
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