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A noite de Gil Scott-Heron @ Aula Magna

Doctor Gil, doutorado em Bluesology. Assim se apresentou Gil Scott-Heron ao início da noite, após surgir pelo meio do fumo branco que assombrava o palco da Aula Magna. A simples silhueta de Scott-Heron desencadeou uma monumental ovação ainda antes do concerto começar. “O mundo ao contrário”, poderia pensar alguém que por mero acaso tivesse caído ali naquele espaço àquela hora. Mas não, o aplauso apoteótico – como que a pedir um encore, no final de um qualquer concerto – anunciava “simplesmente” a chegada de alguém que representa, por si só, um pedaço tão incontornável da história da música e sem o qual nada seria o mesmo – “cause, you know i’ve been sampled a lot of times over the years”.

Sozinho em palco, Gil Scott-Heron começou por assumir o papel de stand-up comedian brincando com o seu passado mais recente e mesmo com o vulcão islandês – que tem atrapalhado a sua digressão –, na tentativa de conquistar o público logo ali, com piadas ligeiras, preparando-o ao mesmo tempo para o que se seguiria.

Ainda sozinho, juntou-se ao seu rhodes para fazer aquilo que tão bem sabe fazer. Com um álbum lançado no início deste ano («I’m New Here») após mais de uma década longe dos estúdios, a expectativa estaria em perceber que parte do seu reportório iria apresentar.

A verdade é que Scott-Heron não teve pressa de chegar ao ano de 2010, passeando por clássicos como «Winter in America», «Home Is Where The Hatred Is», «I Think I’ll Call It A Morning», «Pieces of a Man» e “We Almost Lost Detroit”, alguns dos quais já acompanhados por uma banda composta por três elementos na percussão, órgão e harmónica. Longe do fulgor vocal de outrora teve na sua voz, agora num tom mais grave e sujo, um instrumento que complementou na perfeição as canções da sua vida.

De «I’m new There» – sendo um álbum mais cru, com uma sonoridade muito própria – pouco se adequava ao concerto que Scott-Heron planeara. Naquela noite, Gil era Doctor Gil e o Blues a sua especialidade. Ainda assim tivemos em « I’ll Take Care Of You», dos poucos registos blues deste novo álbum, um dos momentos da noite.

A verdade é que Gil Scott-Heron sabe-o. Sempre o soube e a idade só o veio apurar. Quando canta, e fala, Scott-Heron fá-lo não só para os corações mas também para os cérebros de quem o ouve e é esse o seu mérito, o de ser ouvido durante décadas – residindo aí a sua intemporalidade.

No final o público, que já estava conquistado à partida, ovacionou pedindo mais e o artista respondeu afirmativamente por duas vezes. Em cerca de uma hora e meia Gil Scott-Heron fez desfilar clássicos atrás de clássicos, fazendo questão de marcar na memória de cada um dos presentes o dia em que viram o mestre.

Para ver mais fotos do concerto consultar a conta do ilícito no Flickr.

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Software Engineer @ Movensis com mestrado em Sistemas de Informação Empresariais no Instituto Superior Técnico. Fascinado por fotografia, música, cinema e bem...por tudo o que se escreve por aqui. Fundador e editor do ilícito[mag] Mais aqui

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