São diferentes da maioria. Embora a ele não se restrinjam, guardam um lugar especial para o negro, especialmente no que toca à paleta de cores presente na indumentária utilizada. Funcionam em grupo, como pessoas que são, mas este é um grupo bastante particular.
A música, essa também não é adornada por muitas cores, distanciando-se o mais possível da cultura musical mainstream contemporânea mais facilmente comparável a plástico biodegradável do que a música.
São góticos ou simplesmente alternativos. Vestem-se de preto. Apreciam as criações musicais de Robert Smith e de Ian Curtis. A estas conclusões severamente generalistas já todos chegámos. Mas e o resto?
Nesta entrevista, o ilícito esteve à conversa com o DJ Yggdrasil, um dos responsáveis pelas escolhas musicais das festas Graveyard Sessions, nome de referência na actual cena alternativa nacional.
ilícito: Embora não seja propriamente desconhecido, muita gente fora do circuito underground mais virado para a cena gótica talvez nunca tenha ouvido falar do projecto «Graveyard Sessions». Talvez pudesses começar por nos explicar o conceito, a criação e o objectivo por detrás do projecto.
A génese do projecto remonta aos tempos da festa Graveyard X-Press, a qual decorreu ao longo de vários meses (em 2004 e 2005) no extinto TocSin Club, situado no Bairro Alto (Rua da Atalaia). Na altura, os DJs Stigmata e Trecine decidiram lançar uma festa inovadora que assumia declaradamente um conceito diferenciado das restantes que – por definição – eram bem mais generalistas.
As Graveyard pretendiam antes concentrar-se num punhado de géneros musicais mais próximos do rock (post-punk, gothic rock, coldwave, algum punk rock e MMP – música moderna portuguesa), trabalhando também – em menor escala – algumas sonoridades electrónicas (oldschool EBM, minimal wave, etc.).
Aquela iniciativa congregou um grupo de entusiastas que, aos poucos, começaram a sentir que a mini-pista do TocSin era pequena demais para a devida exploração daquelas sonoridades, algumas delas já bastante esquecidas pela cena alternativa em geral.
Foi assim que pelo final de 2005 os dois membros fundadores decidiram alavancar o projecto. Mudaram o nome da festa para «Graveyard Sessions», “recrutaram” o DJ yggdrasil para o “roster” e, por outro lado, começaram também a procurar outros espaços aos quais procuraram “vender” a ideia de uma festa alternativa com um toque multi-cultural, que dispunha já de um grupo fiel de seguidores.
Foi então que a Caixa Económica Operária abriu as suas portas para a primeira sessão Graveyard no novo formato, no já distante 21 de Janeiro de 2006.

DJ Yggdrasil,um dos responsáveis das Graveyard Sessions, aqui ao comando da mesa de mistura na edição que teve lugar no Porto - ©Mário Cunha
ilícito: As vossas festas costumam ter uma forte componente cénica, recorrendo para isso a decoração, ao invés de se limitarem a deixar os espaços despidos. Até que ponto é a estética uma componente importante para as Graveyard?
Essa vertente (se assim lhe quisermos chamar) foi sempre bastante acarinhada pelo projecto Graveyard. A festa assume-se desde o início como um evento multi-cultural. Um evento em que a decoração do espaço, a projecção de imagens (filmes alternativos, vídeos de bandas) e a dinamização de outros momentos para além da música propriamente dita (leitura de poesia, exposições de fotografia, pintura, ilustração, etc.) são ingredientes obrigatórios e nunca descurados. Tais ingredientes acabaram por contribuir e muito para a crescente popularidade da festa, na medida em que ajudaram a dar-lhe consistência, tornando-a assim numa alternativa por vezes arrojada em relação ao que vinha sendo praticado entre nós.
ilícito: Existem ainda muitas pré-concepções sobre a cena gótica junto da população em geral. Há uns anos, com a crescente mediatização do metal gótico, a cena gótica sofreu um aparente crescimento, sendo que no entanto os dois elementos acabam por não estar muito relacionados. Queres falar-nos um pouco mais sobre isto?
Trata-se de um tema polémico entre as diversas comunidades alternativas e que ciclicamente volta a estar na ordem do dia. Não me queria alongar muito nesta questão específica, pois o metal gótico é um território musical no qual não me sinto muito à vontade, sendo-me por isso difícil dar exemplos concretos que possam explicitar fielmente o que penso sobre o assunto. No entanto, respondendo de maneira muito directa, confesso que não me identifico com esses géneros que acabo por rotular de “crossover”. Ainda que goste de uma grande diversidade de géneros musicais, assumi desde há muito uma postura mais conservadora (purista?) perante a música. O gótico e o metal enquadram-se em imaginários distintos e, como tal, prefiro encará-los de forma isolada e não numa amálgama de estilos, que acaba por gerar produtos que não são nem uma coisa nem outra.
ilícito: Embora as «Graveyard Sessions» sejam eventos assumidamente ligados à cena gótica, existe lugar para um público mais generalista nas vossas festas?
Eu não lhe chamaria “cena gótica”, pois assim estaria a ser algo redutor. Trata-se antes de uma festa alternativa, que privilegia determinado tipo de sonoridades entre as quais está, muito naturalmente, o gothic rock. Todavia, o gótico até que é minoritário no conjunto das nossas “playlists”. Surpresa! O público mais generalista é sempre bem-vindo e de certeza que não se vai sentir desconfortável. Há espaço para todos e com toda a certeza as propostas musicais das Graveyard acabarão, de uma forma ou de outra, por satisfazer o gosto de cada um.
ilícito: Neste vosso regresso à organização de eventos, nas duas festas que deram em Lisboa contaram com a presença de algumas bandas e outras figuras de relevo cultural, como por exemplo o escritor José Luís Peixoto. A abrangência cultural é uma das características a manter em festas futuras? E a que se deve?
Sim, confirmo que essa diversidade cultural é para manter/explorar no futuro próximo. Tal como havia explicitado noutra resposta, a reformulação do projecto Graveyard passou também pela redução do número de festas. Há assim mais tempo para a preparação de cada evento, criando-se condições para a dinamização de vários espaços que não apenas o palco e/ou o “dancefloor”.
Essa experiência tinha resultado bem em algumas festas no Espaço Karnart e, como tal, pareceu-nos indicado recuperar a ideia para dar então voz aos nossos amigos e às suas criações artísticas, quaisquer que elas sejam.
Pretendemos que todas as festas sejam um marco no calendário do ano: algo para mais tarde recordar. Se todavia cairmos na banalidade, é apenas outra festa e as pessoas que nos visitam tanto podem estar ali como num outro lado qualquer! E esse não é de todo o objectivo…
ilícito: A mais recente «Graveyard Session» teve lugar no Porto, e o ilícito sabe que existem planos para uma eventual viagem até ao Algarve. As «Graveyard Sessions» estão actualmente num processo de descentralização ou as saídas da capital não passam de “casos isolados”?
Esta descentralização é uma aposta declarada do projecto Graveyard, pois temos interesse em divulgar a festa junto de outros públicos que não exclusivamente (ou quase) o da Área Metropolitana de Lisboa. Já estivemos três vezes no Porto e outras oportunidades virão. Posso também adiantar que decorrem desde há algumas semanas negociações junto de outros espaços, tanto a Norte como no Sul do país. Acresce ainda dizer que vários dos DJs do “roster” participaram já em festas no estrangeiro, justamente com a “bandeira” da Graveyard! Essa situação ajudou também à projecção da festa para lá da linha de fronteira o que, na nossa perspectiva, é bastante positivo.
ilícito: Durante alguns meses optaram por manter-se “off the radar“, não realizando nenhum evento. Houve algum motivo em especial por detrás da decisão? São de esperar mais hiatos? E já agora, o que esteve na base do regresso?
Depois de três anos muito intensos (com diversas festas e concertos, muitas entradas e saídas de pessoas), achámos por bem ter um “ano sabático” para assim reconstituir a equipa, refrescar o nosso espólio musical e, por outro lado, repensar o projecto. Pretendemos assim ajustar os aspectos que não haviam funcionado da melhor forma num passado recente. Um desses aspectos era justamente o da frequência da festa. De facto, sentimos em 2007 que a Graveyard se estava a banalizar um pouco por ter uma periodicidade mensal. Sentimos que talvez fosse mais adequado organizar menos eventos, embora mais completos e diversificados. Para assim serem momentos especiais, momentos marcantes no calendário e não apenas outra festa… Uma festa a que se poderia ir ou porventura não, caso houvesse outras propostas nessa mesma noite.
ilícito: O ilícito tem conhecimento que para além da descentralização, uma das apostas fortes da organização passa ainda por voltar a apresentar bandas internacionais nas Graveyard, como já fizeram no passado. Existe algum plano para os próximos meses para trazer cá alguma banda de fora?
Sim, confirmamos os ChameleonsVox para 3 de Julho, no Santiago Alquimista. Os bilhetes custam 20 euros (venda antecipada) e 25 euros no próprio dia. Na véspera (2 de Julho) haverá “warm up party” no Metropolis Club. A festa vai contar com a presença da banda, algumas surpresas, venda de bilhetes (para os retardatários) e muito merchandising da banda. As informações detalhadas podem ser consultadas neste «link» do Facebook. . Recorde-se que actuaram entre nós uma única vez há 27 anos, no saudoso Rock Rendez Vous, no já muito distante primeiro de Dezembro de 1983.
ilícito: Sendo tu alguém com vários anos de experiência na cena gótica nacional, com um currículo assinalável de festas cá dentro e lá fora, enquanto organizador, DJ e simples apreciador, como vês o estado da cena gótica em Portugal neste momento?
Tenho alguma resistência em falar de “cena gótica”. Preferia antes falar da “cena alternativa”! Em termos gerais, acho que os tempos são de crise um pouco por todo o lado… Há alguns momentos chave no ano quando temos entre nós bandas míticas e importantes mas, infelizmente, nem sempre esses momentos são aproveitados da melhor forma para revitalizar a cena. É óbvio que agora há muitos mais concertos que há 25-30 anos atrás. É inegável que há agora muito mais lojas alternativas e com uma grande diversidade e qualidade dos produtos disponíveis que no passado… O acesso à informação está também ele muito facilitado mas, por outro lado, perdeu-se algum do carisma, algum desse pioneirismo e DIY (do it yourself). Os “partygoers” são cada vez em menor número (numa base consistente) e, por vezes, é difícil animar a noite com este tipo de propostas alternativas. Mas, por outro lado, está também a acontecer um fenómeno até inesperado do surgimento de vários promotores, festas e grupos de amigos que se juntaram em torno de uma ideia, por sentirem ter uma palavra a dizer neste âmbito. Louve-se esse espírito de iniciativa! Talvez passe por aí a renovação do “contingente alternativo”, se bem que devemos ser igualmente cautelosos nesse sentido. Terá que haver substância, conteúdo… De outro modo, a iniciativa tenderá a degenerar e a tornar-se efémera e superficial, vazia de conteúdo.
ilícito: Em 2008 foram os responsáveis por trazer a Portugal o «Drop Dead Fest», um festival de referência para os amantes das sonoridades mais “dark”, se assim as pudermos caracterizar. Como foi para o colectivo das «Graveyard Sessions» estarem envolvidos num projecto desta envergadura e que balanço fazem hoje, passados dois anos, do evento?
Alguns de nós tiveram o prazer de se deslocar em Praga no ano de 2007, sendo esse o primeiro contacto “in loco” com o DDF. Surgiu logo aí a ideia de trazer para Portugal uma edição do festival e conseguimo-lo (em 2008)! A experiência foi muito gratificante em termos pessoais mas, por outro lado, foi também muito cansativa. A equipa disponível para trabalhar acabou por ser muito reduzida e o grau de exigência (em termos logísticos) com três “venues” distintas e quase 30 bandas ultrapassou tudo quanto estávamos habituados… Ficaram muitas amizades: com bandas, com gente que veio de fora e com outros promotores. O meu corrupio pela Europa como DJ aumentou decisivamente a partir de 2007, tendo-se sucedido algumas participações em festas e festivais em diversos países da Europa (além de Praga, também Londres, Leipzig e Milano…).
E mais virão num futuro próximo! São justamente esses momentos especiais de convívio e de partilha da música que todos adoramos que me motivam a continuar, bem como aos restantes membros do projecto Graveyard.
ilícito: Para finalizar, em poucas palavras como convencerias os leitores do ilícito que ficaram curiosos em relação às «Graveyard Sessions» a comparecem num próximo evento?
Sendo os próximos eventos a “warm up party” e logo depois o concerto dos «ChameleonsVox», é difícil não convencer alguns curiosos! Trata-se de um concerto a não perder (com uma banda mítica dos arredores de Manchester). Vamos juntar uma vez mais todos os ingredientes que ajudaram ao crescimento desta festa alternativa, a qual está aí para interpelar a todos quantos se queiram deixar seduzir por ela… Life is but a dream.
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Nome: Bruno Nunes
Número de Artigos: 292
Apreciador de música, cinema, livros. A bem dizer, apreciador de tudo um pouco. Co-criador e editor do projecto ilícito[mag]. Para mais sobre este indivíduo, visitem http://flavors.me/bmcn.





