
Perdida no interior algarvio renasce, uma vez por ano, a Idade Média, na cidade amuralhada de Silves, outrora capital do império árabe do Al-Andalus.
Mantendo esta tradição do Al-Gharb, começa-se a vivência antiga nos dias mouriscos e termina-se a festa com a reconquista cristã, pela mão de D. Afonso III, El-Rei de Portugal.
Durante nove dias, as suas ruas encheram-se de mercadores e saltimbancos, desfiles e várias personagens da época, elementos que convidam o público a juntar-se à animação ou simplesmente a admirar o espectáculo.
Nos caminhos do burgo, todas as ruelas escondem bancas de artesanato, recuperando os saberes antigos, desde a doçaria regional, que se mantém um grande bastião cultural nacional, até aos velhinhos brinquedos de madeira, que voltam agora a deixar sorrisos na cara dos mais novos.
No entanto, quem vai a “Xilbes” para trazer na memória a experiência dos tempos idos pode também contar com artesãos mais especializados e apreciar as gravações em madeira e pedra, as reproduções de armas medievais, as bancas de toucas e toucados para as damas ou ainda as diversas tendas de “marroquinarias” que se espalham desde a entrada do recinto até aos muros do castelo.
Ainda assim, e apesar de ter o nome de feira, a Feira Medieval de Silves não é apenas um evento dedicado ao comércio de produtos pouco comuns.
No espaço de uma vila inteira renascem palácios, praças, um acampamento militar e até uma liça onde o visitante pode conhecer um pouco mais da vida e os costumes dos que habitavam o sul de Portugal, por entre muçulmanos, cristãos e judeus.
Para o visitante avisado e conhecedor, ou para aquele que nunca viu, existe ainda o cuidado da organização em rechear o burgo de espectáculos temáticos e fiéis reproduções. Entre estas encontram-se as demonstrações de falcoaria, o torneio a cavalo e a pé, assim como várias encenações de episódios históricos relacionados com a vida palaciana dos Valis e com o cerco e reconquista da vila pelos cristãos. Decorrem ainda demonstrações de danças medievais e árabes e as actuações dos saltimbancos. Ou seja, tudo aquilo que se esperaria de uma feira medieval, com a novidade de este ano terem marcado presença dois dromedários que encantaram os visitantes, apenas acostumados a montadas mais europeias.
Depois de tanta animação, ou durante uma pausa para o jantar, nada como parar na área de restauração medieval, um espaço em que se pôde apreciar iguarias tão distintas como javali assado no espeto por cima de um braseiro com dimensões de impor respeito ou uma deliciosa sopa feita em panela de ferro suspensa à antiga sobre uma fogueira redonda?
Para terminar a viagem tornava-se obrigatória a passagem pela doçaria medieval e regional, provando iguarias árabes e coroando o repasto com alguma infusão mais ou menos alcoólica e mais ou menos fumegante, saída de um qualquer caldeirão da bruxa.
Após a refeição houve ainda tempo para mais uma volta pela vila e para apreciar o último espectáculo da noite – o julgamento dos heréticos, ao que acresce a queima das bruxas dos dias cristãos – somente para os estômagos mais fortes, ainda que com uma pitada de comédia sempre presente, para não ferir susceptibilidades, encerrando assim os dias, ou melhor, as noites, na Feira que traz um programa diferente ao quase exclusivamente verão algarvio de sol e praia.




