Frio na cidade de Setúbal. Num Sábado de rescaldo do choque de não ter havido Outono.
Foi o que um dos músicos que actuou mais tarde me contou. Eu não sei porque sou muito “encalorado”.
O amarelado da luz diz-me mais quando está apontar para as paredes velhas, as arcadas feitas de brecha da Arrábida, os restos de obras que nunca acabaram e a pedra muito muito fria do Convento de Jesus do que para qualquer prédio de três andares feito com o mau gosto emigrante ou qualquer outra infra-estrutura de utilidade pública que floresce pela cidade.
Não tenho dúvidas que o frio foi a melhor base de suporte ao festival cujas actuações começaram pouco depois das onze da noite, com uma casa bem composta provando que uma boa divulgação leva as pessoas aos sítios.
Deixem passar os senhores da Câmara que eles não pagam, vamos aproveitar para hipnotizá-los a tirar mil euros por ano da Festa da Sardinha e trazê-los para o Rendez-Vous ou qualquer outra oferta cultural de qualidade que possa multiplicar o reduzido cartaz de interesse que existe actualmente na cidade.
Margarida Garcia e Márcia Bassett não subiram ao palco porque tocaram no meio das pessoas. Uma guitarra e um contrabaixo e duas mulheres sem qualquer piedade pelo ser humano (obrigado!) tocaram como se estivessem para sempre no momento em que a poeira assentou em Hiroshim
a.
Chapa retorcida, um monstro, uma dor aguda, todas estas sensações eram retiradas dos dois instrumentos fluindo sem tempo só com intensidade.
Permitam-me fazer aqui uma ressalva que também é um apelo. O contrabaixo Margarida Garcia está claramente ilegal neste país, violando as directivas da sonoridade dos instrumentos de corda na maior parte das freguesias nacionais pela forma como está afinado, cuspindo frequências para as quais não está licenciado. A prova disso foi o ligeiro atraso no início do concerto, prova clara que o instrumento dá mostras de incompatibilidade até com quem lhe dá suporte. Se alguém souber o seu paradeiro, é favor reportar às autoridades competentes.
Com mais gente em palco, no pico do frio, não pelo frio físico mas pelo gelo das pausas, entrou Sei Miguel.
Com mais ritmo e fluidez que outras actuações recentes, o trompete de Sei Miguel vai progredindo pelo silêncio, usando-o e muito para chegar a uma sonoridade completamente quebrada e disconexa com o ritmo de uma caubélia que causa o medo ao mais vil dos assassinos em série, participando numa filmagem antiga sem qualidade onde personagens imperceptíveis tem acções imperceptíveis. Deixando o espectador permanentemente em busca de um prado verde com montanhas ao fundo e um pic-nic posto por baixo de uma árvore onde possa encontrar alguma tranquilidade. Mas não.
E a partir daqui começa uma história que não se conta às criancinhas nas festa de anos no McDonald’s pelo que encorajamos os incautos a fechar esta página, desligar o computador, vender o recheio do apartamento, colocar a casa no mercado imobiliário e comprar um bilhete de ida para o Sudão onde o despotismo é bem mais prazenteiro que a bomba de som e a esquizofrenia do impasse entre as notas musicais que soariam entretanto.
Astral Social Club. O clube a que quero pertencer. Depois de bem hipnotizados com a footage de Makimono por Werner Nekes, a audiência estava pronta para se levantar e caminhar em fila ao Multibanco mais próximo, levantar as poupanças de uma vida e entregá-las a Alexandre Estrela, responsável pela exibição das imagens. No entanto, operando maquinaria pesada em cima de uma tábua sustentada por dois cavaletes, em busca de fidelizar membros, Astral Social Club.
Talvez o acto onde senti mais estrutura, crescendo apenas, mas ainda assim estrutura. O pára-arranca sem nunca ter feito nenhum dos dois multiplicava-se pela actuação de Neil Campbell que demostrava domínio perfeito das máquinas no meio do amontoado de papéis, formulários, requerimentos, carimbos, dossiers, clipes, armários e funcionários públicos com espasmos musculares que a sua música evocou na minha cabeça.

Juntando-se-lhe uma voz já no crescendo final, Neil deixava os efeitos a comunicar entre si (um verdadeiro diplomata dos dispositivos electrónicos; mais tarde veio a cultivar o diálogo entre a minha torradeira e o meu microondas, de costas voltadas há anos) partia para a guitarra e partia-nos a cabeça tornando-se por momentos praticamente inaudível tal o volume e preenchimento do seu som. Provocando inclusive, dor. Quem dá o que tem, a mais não é obrigado.
Mais tarde na tasca, eu e um colega de faina, entre conversas sobre fotónica nuclear e ângulos de corte para desmontar peças de carne de vaca, lá nos enfiámos a esmiuçar a paleta de cores que a programadora setubalense Ana Baliza gentilmente nos colou na testa e nos deixou com o sabor agridoce entre saber quem são estas pessoas que nos passaram à frente, sobre o verdadeiro valor de um artista musical que explora, que pesquisa e revoluciona nos seus processos de criação e o resultado efectivo da sua obra que tem de ser invariavelmente exposta a uma audiência que nem sempre pode estar informada quando à validade dos métodos de criação e sem dúvida agarrada à necessidade de estrutura e finalidade de uma peça musical.

Sim. As actuações eram noise, experimental, avant-garde, difíceis de consumir (catalogue-se à consignação), de ponto de partida repentino e ponto de chegada desconhecido. Nenhuma era a afiliação a qualquer estrutura ou convenção, ainda assim nenhuma RFM foi maltratada no decorrer do festival e certamente nenhum dos seus interveniente verteu qualquer sentimento ao saber que a RFM não daria cobertura ao evento.
Estes artistas têm em comum algo difícil de entender e de admitir. Que a sua música está intimamente ligada ao seu ser, ao seu percurso e descoberta e que comunicam com o que têm de mais primitivo e bruto, a sua cognição. Descobrir isso é sem dúvida a tarefa mais complicada de todas.
