
Já se tornou um (bom) hábito a azáfama que no primeiro fim de semana de Dezembro se gera pela calçada e ruelas adjacentes à Avenida da Liberdade. Outrora associado a uma marca de cerveja, O Vodafone Mexefeste surge como uma evolução do formato que o Super Bock em Stock havia introduzido, de há uns anos para cá, no calendário cultural da capital – mas que este ano também terá uma edição no Porto – num conceito que muitos associam a um South By Southwest à portuguesa. Ou seja, uma agenda pautada por múltiplas actuações, em simultâneo, espalhados por vários espaços distintos – tanto geograficamente como em termos de conceito – apostando normalmente em artistas mais associados ao panorama alternativo musical, tornando-se o festival ideal para descobrir novos nomes quer nacionais como internacionais.
Se é certo que em termos de dimensão este festival ainda estará bastante longe do SXSW, certo é que este ano marcou um crescimento significativo no festival, que se extendeu a um maior número de salas com um maior número de artistas, originando não raras vezes a situações de dilema na altura de escolher o espectáculo a assistir e, impossibilitando também que se assistisse a aos concertos na integra – afinal de contas o objectivo é ver o máximo de bandas possíveis, ou pelo menos o nosso era, e fizémos por isso.

O primeiro dia começou no requintado terraço do Hotel Tivoli, convertido por estes dias em palco intimista do festival que aliava à dimensão uma vista magnífica sobre a cidade. Aqui assistiu-se ao concerto dos portugueses Julie & the Carjackers, banda lisboeta que trazia na bagagem um EP lançado pela Optimus Discos e um álbum pela Pataca Discos. À sua espera estava uma sala muito bem composta e onde as expectativas não foram certamente defraudadas. Exibindo um rock-folk com melodias capazes de encher ouvidos e corações, os Julie & Carjacjackers fizeram balançar as cabeças dos presentes com uma actuação que, mais do que competente foi sentida.

E foi com o concerto prestes a terminar que os deixámos para descer a rua até à sala 1 do Cinema São Jorge com o objectivo de conhecer a castelhana Bebe, um fenómeno de popularidade no país vizinho e que congregava na plateia muitos fãs (sobretudo do sexo feminino), ansiosas por dançar ao som da sua música. Foi inclusive a efusividade da plateia que pareceu aquecer a cantora depois de uma entrada morna e algo apática. Mas Bebe soltou-se rapidamente, e a efusividade da sua pop com aroma e alma de flamenco fez explodir o público que não se conteve e ali mesmo se levantou e dançou com a castelhana. Meia dúzia de músicas foram quanto baste para compreender o porquê do sucesso de Bebe. Com uma voz poderosa, melodias dançáveis e, porque não dizer, uma imagem capaz de rivalizar com qualquer típica popstar, Bebe seduz.

No rodopio, seguiu-se uma passagem pelo Tivoli para assistir àquela que terá sido para quem vos escreve uma das maiores surpresas do festival. Directamente do Canadá – de onde resto parece vir grande parte da música norte-americana alternativa mais interessante dos dias que correm- os Handsome Furs consistem num dueto bastante minimal no que aos recursos utilizados diz respeito – apenas uma guitarra, um mpc e sintetizadores – revitalizando o post-punk do inicio dos 80′s, e com batidas electrónicas pujantes transformando um teatro de traços neoclássicos da capital Lisboeta num armazém mal amanhado de Brooklyn. Com uma presença em palco imensa, puxando constantemente pelo público e desfrutando cada momento.

Próxima paragem: Cabaret Maxime, para pela primeira vez ouvir e ver ao vivo os Macacos do Chinês após o lançamento do seu mais recente trabalho «Vida Louca» – curiosamente numa sala onde os havia conhecido pela primeira vez, anos antes, quando a banda ainda se preparava para lançar o primeiro trabalho « Ruídos Reais». Mas, porque ficava a caminho, passamos pela sala menor do São Jorge para aferir a actuação dos londrinos S.C.U.M. e duas músicas bastaram para perceber onde vão beber as suas principais influências, nomeadamente a um registo britânico por meados da década de 80.
Chegando ao Cabaret Maxime deparámo-nos com uma actuação extremamente entusiasmante dos Macacos do Chinês, num concerto dominado pelos novos temas. Se há coisa que o tempo lhes tem trazido é a consolidação nas suas actuações, e a verdade é que «Vida Louca» ganha nova dimensão quando tocado ao vivo. Se com temas como «Selva» ou «Dái-me forças» – primeiro single deste álbum – os MDC foram aquecendo o público, foi em temas «Qual é o Mal» e «Lázaro» que o Cabaret Maxime esteve perto de ruir. «Qual é o Mal», que trouxe ao palco a convidada especial Lúcia Moniz, resulta como o melhor single de verão que um inverno rigoroso poderá ter – estava frio lá fora mas o refrão a fazer relembrar uma qualquer canção de pop anos 80 aquecia e de que maneira os presentes. Já «Lázaro», bem…«Lázaro» é daqueles temas que transcende tudo o que os MDC tenham feito até então - sem querer desvalorizar as grandes canções que compõem o seu reportório – mais do que uma música, é o sinal de que a banda caminha no percurso correcto. E se no álbum já se destacava de todas as outras músicas, ao vivo o espírito de Samuel Lázaro parece ganhar vida própria, porque ele sim é o protagonista da «Vida Louca» que os MDC anunciam neste novo trabalho.

Seguiu-se uma pausa para “descansar” ao som dos Junior Boys no teatro Tivoli, naquela que foi, diga-se, uma actuação pouco entusiasmante perante um Tivoli bem composto. Mas o tempo era escasso e pouco faltava para o momento alto, não da noite mas do festival. A opção de colocar o concerto dos Spank Rock num recinto pequeno como o Maxime que poderia à partida ser pequeno para o conjunto norte-americano que ousou misturar batidas maximais com rimas afiadas de hip-hop e a fila que se verificava no final do concerto assim o comprovava. O Maxime foi pequeno de mais para os Spank Rock e ainda bem que assim foi. Com o recente «Everything Is Boring & Everyone Is A Fucking Liar» na bagagem, os Spank Rock fizeram a festa com os mc’s a guiarem o público numa viagem delirante que viria a demorar cerca de uma hora ao terminar em apoteose com o single «Car Song», que conta com a participação de Santigold, com o público no palco a dançar e um dos mc’s a fazer crowdsurf. Um concerto que encerraria a primeira noite de festival e que deixava uma certeza: seria difícil igualar, no segundo dia, aquilo que os Spank Rock fizeram no Maxime.

E a verdade é que o segundo dia daria lugar a concertos mais introspectivos, com os destaques da noite a irem claramente para a actuação soberana dos Dead Combo que, perante um Teatro Tivoli cheio, passearam as suas mornas e cachupas misturadas com blues do Cais do Sodré num cenário em tudo burlesco. Guitarradas, samples de ruídos recriados em palco, contra-baixo estão na essência na sonoridade dos Dead Combo. Pelo caminho ficaram actuações d’ Os Salto e de Old Jerusalem, que em salas mais pequenas conseguiram, por motivos distintos, reunir uma boa massa humana em seu redor. Se Os Saltos conseguiram gerar em seu redor uma onda de entusiasmo fruto de um pop cativante e electrizante, já Old Jerusalem actuarou na Igreja S. Luís dos Franceses para protagonizar momentos mais introspectivos e intimistas num palco propício para o efeito.
Mas foi quando James Blake subiu ao palco do Teatro Tivoli que o maior entusiasmo se fez manifestar. Um teatro a abarrotar e as filas lá fora não deixavam mentir: James Blake era mesmo o nome grande do cartaz desta edição e o qual ninguém queria perder. Afinal de contas, depois de em 2010 ter dado ao mundo um dos melhores álbuns do ano, foi em 2011 que James Blake veio a recolher os frutos desse sucesso, tendo ainda editado um EP no mês de Outubro. E não terá certamente desiludido. Com um concerto intimista, de batidas arritmadas e baixos intensos que se propagavam pela sala interferindo com as batidas cardíacas dos presentes, James Blake é o tipo de músico que se preocupa em executar até ao mais ínfimo pormenor a experiência recriada em álbum, sem grandes improvisos nem grandes interacções com os presentes. Fá-lo apenas de Watts amplificados elevando o concerto a uma experiência sensorial que não se limitava apenas aos ouvidos.
Para o final deixámos Toro y Moi, numa altura em que Lindstrom actuava no Maxime. Na bagagem, o projecto trazia dois dos trabalhos mais entusiasmantes do ano de 2011 – o LP «Underneath the Pine» e o EP «Freaking Out». Num concerto com os músicos em palco empenhados em recriar ao máximo as batidas dançantes gravadas nos álbuns, sem grandes entusiasmos, foi o público que fez a festa num São Jorge onde apesar das cadeiras, poucos foram os que se aguentaram sentados, dançando ao ritmo das batidas electrizantes produzidas por Chazwick Bundick.


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Software Engineer @ Movensis com mestrado em Sistemas de Informação Empresariais no Instituto Superior Técnico. Fascinado por fotografia, música, cinema e bem...por tudo o que se escreve por aqui.
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